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O Tibre e o redesenho das rotas comerciais

19 de fevereiro, 2026 Por: Martin Iglesias, CFP® - Líder em Recomendação de Investimentos do Itaú Unibanco

Martin Iglesias escreve sobre sua viagem mais recente à Itália e traça um comparativo das rotas comerciais na Roma Antiga com o comércio internacional atual.

Acabo de passar alguns dias em Roma. Meu hotel ficava próximo à Ponte Sisto, entre os bairros de Regola e Trastevere, e em algumas ocasiões atravessei aquela ponte durante meus deslocamentos pela cidade. O gesto era simples, parte natural do caminhar entre ruas estreitas, igrejas milenares e pequenos cafés. Ainda assim, sempre que passava por ali, era difícil não olhar para baixo e pensar no rio que corria silencioso sob meus pés.

Hoje, o Tibre parece discreto. Suas águas seguem lentas, observadas por corredores e turistas, sem denunciar o papel extraordinário que já desempenharam. Mas houve um tempo em que esse rio era uma das principais artérias econômicas do mundo. Foi por ele que chegaram, durante séculos, embarcações carregadas de trigo do Egito, azeite da Hispânia, vinho da Grécia, mármore da Ásia Menor e especiarias que haviam cruzado desertos e oceanos desde o Oriente.

Em um momento como o atual, em que o mundo volta a redesenhar suas parcerias comerciais, revisando dependências estratégicas e fortalecendo cadeias produtivas regionais, estar diante do Tibre é um lembrete poderoso de que o comércio internacional sempre foi mais do que uma questão de eficiência. Sempre foi uma questão de confiança.

O funcionamento desse sistema era impressionantemente sofisticado. Os grandes navios que cruzavam o Mediterrâneo atracavam em Óstia, o principal porto de Roma, ou em Portus, o complexo portuário construído posteriormente para ampliar a capacidade logística do império. Dali, as mercadorias eram transferidas para embarcações fluviais menores, que subiam o Tibre até os armazéns da cidade. Roma, embora não estivesse diretamente no litoral, estava plenamente conectada ao mundo.

Cada região desempenhava um papel específico nessa rede. O Egito fornecia o trigo que alimentava a população. A Hispânia exportava azeite, prata e metais. A Grécia contribuía com vinhos e produtos refinados. Do Oriente vinham seda, incenso e pedras preciosas. Não se tratava apenas de comércio, mas de uma verdadeira integração econômica, construída séculos antes da existência de qualquer tecnologia moderna.

Esse sistema dependia de três pilares fundamentais: o primeiro era a infraestrutura. Portos, estradas e armazéns foram construídos em uma escala sem precedentes, permitindo fluxo contínuo de mercadorias. O segundo era a moeda. O denarius romano, cunhado em prata, tornou-se amplamente aceito em todo o mundo conhecido. Sua estabilidade refletia a credibilidade do próprio Estado romano. Mais do que metal, era confiança materializada.

Mas talvez o terceiro pilar seja o mais interessante para quem observa o mundo financeiro contemporâneo: o desenvolvimento de instrumentos de crédito e financiamento.

Uma viagem marítima era uma operação de risco elevado. Tempestades, acidentes e pirataria eram ameaças constantes. Para viabilizar essas expedições, surgiram contratos específicos de financiamento marítimo, nos quais investidores forneciam capital para a viagem em troca de retornos mais elevados, assumindo o risco de perda caso a carga não chegasse ao destino. Era uma forma primitiva, mas conceitualmente sofisticada, de financiamento baseado em risco, muito próxima do que hoje reconhecemos como estruturas de project finance ou mesmo de seguro.

Além disso, banqueiros privados facilitavam pagamentos e transferências entre diferentes regiões do império. Nem sempre era necessário transportar grandes quantidades de ouro ou prata fisicamente. Registros contábeis e redes de confiança permitiam que transações fossem realizadas com segurança e previsibilidade.

O que sustentava esse sistema não era apenas o poder militar de Roma, mas a previsibilidade institucional. A previsibilidade das regras, a estabilidade da moeda e o respeito aos contratos criavam o ambiente necessário para que o comércio florescesse.

Há uma lição importante nisso.

Nas últimas décadas, o mundo viveu uma expansão extraordinária do comércio global, baseada em cadeias produtivas altamente integradas e orientadas pela eficiência. Produzir onde era mais barato, transportar onde fosse necessário, otimizar cada etapa. Mas eventos recentes trouxeram uma nova variável para o centro das decisões econômicas: a resiliência.

Países passaram a reconsiderar dependências críticas. Empresas passaram a diversificar fornecedores. O comércio continua global, mas torna-se mais estratégico. O que vemos não é o fim da integração econômica, mas seu redesenho.

Roma oferece uma perspectiva valiosa. Seu sistema comercial não foi construído apenas sobre geografia ou poder, mas sobre confiança. Confiança na moeda. Confiança nas instituições. Confiança na continuidade das regras.

Ao caminhar sobre a Ponte Sisto e observar o Tibre, é possível imaginar as embarcações que um dia subiram suas águas, carregando não apenas mercadorias, mas os fundamentos de uma economia que sustentou uma civilização por séculos. O rio continua o mesmo. As embarcações mudaram. A tecnologia evoluiu. Mas os princípios permanecem surpreendentemente atuais.

O comércio internacional, ontem como hoje, é, acima de tudo, confiança em movimento.

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