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14 de Abril: entre o Titanic, a Nasdaq e um presente que parece diferente

14 de abril, 2026 Por: Martin Iglesias, CFP® - Líder em Recomendação de Investimentos do Itaú Unibanco

Martin Iglesias relembra dois acontecimentos históricos do dia e como, até hoje, eles nos ensinam: na vida e nos investimentos.

 

Na noite de 14 de abril de 1912, o RMS Titanic deslizava pelo Atlântico como uma certeza. O mar parecia calmo, o céu limpo, e a engenharia humana, finalmente, havia dado um passo à frente do imprevisível. A bordo, não havia apenas passageiros, mas uma ideia: o progresso havia se tornado confiável. Os avisos existiam, como sempre existem. Mas, naquela noite, pareciam distantes, quase irrelevantes. Afinal, algumas convicções são tão confortáveis que dispensam confirmação.

Exatamente 88 anos depois, em 14 de abril de 2000, outra travessia parecia igualmente segura. O NASDAQ Composite vinha de anos de valorização intensa, impulsionado por uma nova promessa, a de que a internet mudaria tudo. E mudou. Mas, talvez, não da forma, nem no tempo, que os preços sugeriam. Naquele dia, o índice caiu quase 10%. Em uma semana, a queda se aproximou de 25%. Não era o fim da tecnologia. Era o início do ajuste entre expectativa e realidade.

Há algo de familiar entre essas duas noites separadas por quase um século. Não é o evento em si, mas o estado de espírito que o antecede. A confiança elevada, a sensação de controle, a ideia de que, desta vez, entendemos melhor. O Titanic não era apenas um navio. Era um símbolo de segurança. O Nasdaq não era apenas um índice. Era a expressão de uma nova era. Em ambos os casos, o problema não estava naquilo que era novo, mas na forma como se acreditou nele.

E, então chegamos, a mais um 14 de abril, agora distante 114 anos daquele navio e 26 anos daquele pregão. Tempo suficiente para acumular experiência e, quem sabe, sabedoria.

A inteligência artificial ocupa hoje esse espaço delicado entre o real e o projetado. Há investimento, há ganhos, há aplicações concretas. Diferente de 2000, muitas das empresas que lideram esse movimento são lucrativas, geram caixa e operam com escala global. A infraestrutura não é hipotética. Ela já está construída, ou em construção acelerada. A tecnologia não é uma promessa abstrata. É uma ferramenta em uso.

Aqui vale uma afirmação direta: Eu não acredito que estamos diante de uma bolha de inteligência artificial.

A minha preocupação é outra, mais sutil e, talvez, mais relevante. Não com o presente, mas com a trajetória. Com a possibilidade de que, à medida que essa tecnologia continue a se valorizar e a entregar resultados, o mercado passe, pouco a pouco, a extrapolar demais esse futuro. Não seria a negação da realidade, como em 2000, mas um excesso de confiança sobre algo que é real. E, justamente por ser real, pode parecer ainda mais seguro do que de fato é.

Os mercados não exageram por falta de inteligência. Exageram por excesso de convicção. E toda grande transformação carrega consigo essa ambiguidade. Ela é, ao mesmo tempo, verdadeira e, potencialmente, superestimada.

O Titanic nos lembra que segurança percebida não é o mesmo que segurança real. A bolha das empresas ponto com mostra que inovação não elimina a necessidade de retorno. E a inteligência artificial nos desafia a reconhecer que mesmo o que funciona pode ser precificado além do razoável, sem que isso invalide sua importância.

Talvez, investir seja isso. Um exercício constante de equilíbrio entre entusiasmo e prudência. Entre reconhecer o novo e respeitar o desconhecido. Porque o risco raramente desaparece. Ele apenas se desloca, silenciosamente, para onde deixamos de olhar.

E, no fim das contas, o 14 de abril segue sendo uma data curiosa. Não apenas marcada por excessos de confiança ou ajustes dolorosos, mas também pelo nascimento do Santos Futebol Clube, fundado em 14 de abril de 1912, no mesmo dia do Titanic. O que, para alguns, pode ser visto como um fato irrelevante e sem conexão, e para outros uma coincidência histórica. Afinal, correlação não implica causalidade. E, felizmente, nem toda coincidência carrega um destino.

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