Em mais uma coluna, Renato Eid faz uma reflexão sobre o papel do ouro no portfólio dos investidores e como entender sua função.
A recente queda do ETF GLDI11 (Ouro + Tesouro Selic) em meio a um cenário de escalada geopolítica gerou uma reação quase automática: questionar sua função como proteção.
O problema, talvez, não esteja no ativo, mas sim na expectativa. Investir não é sobre certezas, é sobre lidar com incertezas. E, nesse contexto, nenhum ativo funciona perfeitamente o tempo todo. Nem o ouro.
Nos últimos três anos, o metal precioso deixou de ser apenas um instrumento de proteção para se tornar também uma história de retorno. A forte alta atraiu fluxo, ampliou a base de investidores e, inevitavelmente, trouxe consigo um componente mais tático. O aumento expressivo na demanda via ETFs é um reflexo claro disso.

Quando um ativo passa por esse processo, ele muda. Não estruturalmente, mas no seu comportamento de curto prazo. O que antes era predominantemente proteção, passa a carregar também dinâmica de fluxo, posicionamento e realização de lucro.
Esse fato é reforçado quando olhamos os fluxos para os ETFs de Ouro: março foi um dos piores meses em termos de saída, com mais de US$ 10 bilhões retirados dessas estratégias.
A queda recente não invalida o papel do ouro. Ela apenas lembra que, mesmo ativos defensivos, não estão imunes à lógica de mercado, especialmente após movimentos tão fortes.
Diante disso, vender ouro porque ele “não funcionou” em um episódio específico parece uma leitura simplista de um fenômeno muito mais complexo. O ponto central é outro: qual é o papel do ouro dentro da carteira?
Se a resposta for proteção estrutural, diversificação e descorrelação, então pouco mudou. Esses fundamentos seguem presentes e, talvez, até mais relevantes em um mundo marcado por incertezas fiscais, inflação persistente e tensões geopolíticas recorrentes.
Aliás, se existe um sinal que merece atenção, não está no comportamento de curto prazo dos investidores, mas sim nos fluxos estruturais. E nesse ponto, há um movimento claro.
Os bancos centrais continuam comprando ouro de forma consistente. A China, em particular, ampliou suas reservas pelo 17º mês consecutivo, inclusive aproveitando a recente queda para seguir acumulando posição.
Enquanto parte do mercado reage ao curto prazo, governos estão tomando decisões com horizonte muito mais longo. E essas decisões dizem muito sobre como o ouro é percebido como reserva de valor em um sistema global cada vez mais fragmentado.
Para o investidor, a mensagem parece direta.
O ouro não sobe em todas as crises, nem responde de forma linear a eventos específicos. Mas continua sendo um ativo relevante na construção de portfólio justamente por não depender de um único cenário para gerar valor.
No fim, não se trata de abandonar o ouro, nem de aumentar exposição indiscriminadamente. Trata-se de entender sua função.
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