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O petróleo, a inflação e as lições de1994

05 de junho, 2026 Por: Martin Iglesias, CFP® - Líder em Recomendação de Investimentos do Itaú Unibanco

Às vésperas do mundial, Martin Iglesias relembra o ano de 1994, quando o Brasil venceu o tetra e os brasileiros conheceram uma nova moeda

Julho de 1994 ficou gravado na memória dos brasileiros por muitos motivos. Eu tenho duas lembranças muito particulares daquele mês.

A primeira vinha do trabalho. Eu já atuava no mercado financeiro e me recordo das conversas quase diárias sobre a URV, a Unidade Real de Valor, que serviria de ponte para a nova moeda. Havia uma curiosidade genuína sobre qual seria sua cotação final. Analistas, economistas e profissionais do mercado faziam contas, projeções e apostas. Quando o processo foi concluído, o número ficou marcado na memória de muita gente: uma URV equivalia a 2.750 cruzeiros reais.

A segunda lembrança é familiar. Na véspera da final da Copa do Mundo, minha irmã se casou. Vieram parentes e amigos de várias cidades do Brasil e também do Chile. No dia seguinte, todos se reuniram na sala da casa da minha mãe para assistir à decisão contra a Itália. Nunca vi tanta gente naquela sala. Pelo menos não antes nem depois daquele domingo de julho.

Naqueles dias, o Brasil acompanhava duas estreias. Uma nova moeda começava a circular em 1º de julho. Pouco mais de duas semanas depois, a seleção conquistaria o tetracampeonato mundial nos Estados Unidos.

A vitória no futebol foi imediata, barulhenta e emocionante. A outra seria percebida aos poucos, no cotidiano das famílias, das empresas e dos investidores.

Trinta e dois anos depois, a inflação voltou a ocupar espaço nas manchetes do mundo inteiro. A escalada das tensões no Oriente Médio reacendeu preocupações sobre o preço do petróleo e seus possíveis impactos sobre a economia global.

Mas afinal, o que é inflação?

Economistas costumam defini-la como um aumento persistente e generalizado do nível de preços de uma economia.

Generalizado porque o aumento isolado do preço de um produto não caracteriza inflação. Uma guerra pode elevar o preço do petróleo. Uma seca pode encarecer alimentos. A inflação surge quando o movimento alcança diversos setores da economia.

Persistente porque nem todo aumento de preços se transforma em inflação. Um choque pode elevar temporariamente o nível de preços e parar. A inflação propriamente dita surge quando esse movimento se prolonga no tempo e passa a influenciar decisões de empresas, trabalhadores, consumidores e investidores.

De forma simplificada, a inflação costuma ter duas origens principais.

A primeira é a inflação de demanda. Ela ocorre quando famílias, empresas e governos desejam consumir mais do que a economia consegue produzir. Nesses momentos, os bancos centrais elevam os juros para reduzir o ritmo do crédito, do consumo e dos investimentos, ajudando a equilibrar oferta e demanda.

A segunda é a inflação de oferta. Nesse caso, o problema não nasce do excesso de consumo, mas de dificuldades na produção ou do aumento dos custos. É justamente esse o risco que voltou ao centro das atenções. O petróleo está presente direta ou indiretamente em praticamente todas as cadeias produtivas modernas. Quando seu preço sobe de forma significativa, o impacto pode alcançar transportes, energia, alimentos, produtos industriais e diversos serviços.

Surge então uma pergunta interessante: se uma guerra provoca a alta do petróleo, por que os bancos centrais respondem com juros mais elevados?

A resposta é que os juros não combatem o choque inicial. Juros mais altos não produzem petróleo nem encerram conflitos militares.

O objetivo é evitar que um aumento temporário de preços se transforme em um processo inflacionário persistente. Se empresas passam a reajustar preços antecipadamente, trabalhadores negociam aumentos salariais maiores e consumidores acreditam que a inflação permanecerá elevada, o choque inicial começa a se espalhar pela economia, são os chamados “efeitos de segunda ordem”.

É por isso que a política monetária não atua apenas sobre a inflação observada, mas também sobre as expectativas.

A seleção de 1994 nos deu uma taça. O Plano Real nos devolveu algo menos visível, mas igualmente valioso: a capacidade de confiar novamente no valor da moeda. Algumas vitórias ficam guardadas em fotografias. Outras permanecem escondidas no cotidiano.

Lembramos dos pênaltis contra a Itália, das comemorações nas ruas e da taça erguida em Pasadena. Mas talvez a outra vitória daquele julho tenha sido igualmente importante: a possibilidade de voltar a fazer planos sem que a inflação os corroesse pelo caminho.

Em poucas semanas, uma nova Copa do Mundo começará. E ela chega justamente em um momento em que o mundo volta a discutir inflação, petróleo, juros e estabilidade econômica.

Os desafios de hoje são diferentes daqueles enfrentados pelo Brasil em 1994. Ainda assim, a experiência daquele período continua valiosa. Ela nos lembra que a estabilidade monetária não deve ser vista como algo garantido. É uma construção permanente, resultado de instituições sólidas, políticas responsáveis e da confiança da sociedade.

Talvez seja essa a conexão mais interessante entre aquelas duas vitórias de julho. Uma foi celebrada em estádios e estampou as manchetes do mundo inteiro. A outra aconteceu de forma silenciosa, mas continua produzindo efeitos até hoje.

Enquanto aguardamos o início de mais uma Copa do Mundo, vale lembrar que algumas das conquistas mais importantes de um país não são erguidas acima da cabeça como um troféu. Elas aparecem discretamente no cotidiano, na capacidade de fazer planos, investir, empreender e olhar para o futuro com mais confiança.

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