Em sua mais recente coluna, Martin Iglesias relembra o lançamento do IBM PC, que revolucionou a forma como nos relacionamentos com a tecnologia hoje.
Em 12 de agosto de 1981, poucas pessoas perceberam que estavam assistindo a um daqueles raros momentos em que a história muda de direção. A IBM lançava o Personal Computer, o IBM PC. Não era o primeiro computador do mundo. Nem o mais potente. Tampouco o mais barato. Ainda assim, aquela máquina acabaria moldando a forma como trabalhamos, estudamos, nos comunicamos e produzimos riqueza.
O motivo vai muito além da tecnologia.
Naquele agosto de 1981, ninguém seria capaz de imaginar que aquele computador, equipado com um processador Intel 8088 de 4,77 MHz, apenas 16 KB de memória na configuração básica e disquetes para armazenar informações, abriria caminho para uma economia em que bilhões de pessoas carregariam no bolso aparelhos milhões de vezes mais poderosos. Muito menos que, algumas décadas depois, essas máquinas seriam capazes de interpretar imagens, escrever textos, traduzir idiomas e conversar com seus usuários por meio da inteligência artificial.
Computadores já existiam havia décadas. Eram utilizados por governos, universidades e grandes empresas. Ocupavam salas inteiras, exigiam equipes especializadas e estavam muito distantes da realidade da maioria das pessoas.
O grande mérito do IBM PC não foi inventar o computador. Foi democratizá-lo.
Pela primeira vez, pequenas empresas, profissionais liberais e, pouco depois, famílias inteiras passaram a imaginar que um computador poderia fazer parte da rotina. A computação deixava de ser uma ferramenta restrita a especialistas para tornar-se um instrumento de trabalho, educação e criação.
Mas houve uma segunda decisão, muito menos conhecida, que talvez tenha sido ainda mais importante. Ao contrário do que fazia tradicionalmente, a IBM não desenvolveu sozinha todos os componentes da máquina. Escolheu utilizar um processador fabricado pela Intel, licenciou o sistema operacional de uma então pequena empresa chamada Microsoft e adotou uma arquitetura relativamente aberta. Na prática, outras empresas poderiam produzir computadores compatíveis.
Poucos perceberam a importância dessa decisão. Em vez de criar apenas um produto, a IBM ajudou a criar um ecossistema.
Outros fabricantes passaram a desenvolver computadores compatíveis. Novas empresas criaram softwares. A concorrência reduziu os preços. Milhões de pessoas compraram seus primeiros computadores. Quanto maior o número de usuários, maior o incentivo para produzir novos programas. Quanto mais programas existiam, mais pessoas desejavam comprar computadores.
A inovação passou a alimentar a própria inovação. Os efeitos apareceram rapidamente.
Planilhas eletrônicas transformaram a contabilidade. Processadores de texto mudaram os escritórios. Bancos modernizaram seus sistemas. Pequenas empresas passaram a competir com organizações muito maiores. A produtividade cresceu praticamente em todos os setores da economia.
Sem milhões de computadores espalhados pelo mundo, dificilmente a internet teria alcançado a velocidade com que se expandiu na década de 1990. Depois vieram os notebooks. Depois os smartphones. Depois a computação em nuvem. Agora, a inteligência artificial.
Olhando para trás, essa sequência parece inevitável. Mas não era.
Em 1981, poucos conseguiam enxergar toda essa cadeia de acontecimentos. O IBM PC parecia apenas mais um lançamento tecnológico. Alguns especialistas acreditavam que computadores pessoais interessariam apenas a engenheiros e grandes empresas.
A história mostrou exatamente o contrário.
Talvez estejamos vivendo hoje um momento semelhante.
A inteligência artificial já existia havia décadas nos laboratórios e universidades. Assim como aconteceu com os computadores antes de 1981, era uma tecnologia conhecida principalmente por especialistas. Nos últimos anos, porém, passou a fazer parte da rotina de centenas de milhões de pessoas.
Existe uma semelhança elegante entre esses dois momentos históricos.
O IBM PC não inventou a computação. Democratizou a computação.
Os modelos generativos não inventaram a inteligência artificial. Democratizaram a inteligência artificial.
Mais do que isso, repetem a mesma lógica econômica. Assim como a arquitetura aberta do IBM PC permitiu que milhares de empresas desenvolvessem novos equipamentos e programas, a inteligência artificial vem se transformando em uma plataforma sobre a qual pesquisadores, startups e grandes empresas constroem aplicações que seus próprios criadores jamais conseguiriam imaginar sozinhos.
O historiador econômico Joel Mokyr costuma afirmar que o crescimento das sociedades depende da capacidade de transformar conhecimento em aplicações práticas. O computador pessoal fez exatamente isso. A inteligência artificial parece seguir o mesmo caminho.
Talvez por isso a história seja tão útil para compreender o futuro.
Em agosto de 1981, praticamente ninguém conseguiria prever o comércio eletrônico, as redes sociais, os aplicativos de transporte, o streaming, o trabalho remoto ou as videoconferências. Da mesma forma, provavelmente hoje ainda somos incapazes de enxergar todas as transformações econômicas e sociais que a inteligência artificial produzirá nas próximas décadas.
A história costuma ensinar humildade.
As maiores revoluções tecnológicas parecem pequenas quando começam e inevitáveis quando terminam.
Quarenta e cinco anos depois do lançamento do IBM PC, talvez a melhor pergunta não seja até onde a inteligência artificial conseguirá chegar.
A pergunta realmente interessante é outra.
Quais invenções nascerão dela e que hoje sequer conseguimos imaginar?
Fontes:
IBM Archives. IBM Personal Computer (Model 5150).
CERUZZI, Paul E. A History of Modern Computing. MIT Press, 2003.
ISAACSON, Walter. The Innovators. Simon & Schuster, 2014.
MOKYR, Joel. The Gifts of Athena: Historical Origins of the Knowledge Economy. Princeton University Press, 2002.
MOKYR, Joel. A Culture of Growth: The Origins of the Modern Economy. Princeton University Press, 2016.
BRYNJOLFSSON, Erik; McAFEE, Andrew. The Second Machine Age. W. W. Norton, 2014.
Computer History Museum. Timeline of Computing History.