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40 anos do Plano Cruzado: memória, aprendizado e permanência

21 de janeiro, 2026 Por: Martin Iglesias, CFP® - Líder em Recomendação de Investimentos do Itaú Unibanco

O Brasil aprendeu a controlar a inflação — mas não a subestimar seus efeitos. Em seu novo artigo, Martin Iglesias conta como o Plano Cruzado ajudou a construir a história do controle de preços no país.

No fim de fevereiro de 1986, eu ainda estava no colégio. Lembro com clareza do dia em que o Plano Cruzado foi anunciado. Não era um tema distante ou técnico. Virou assunto imediato em sala de aula. Professores e alunos tentavam entender o que aquilo significava. Falava-se de inflação, de preços congelados, de uma nova moeda. Havia, sobretudo, uma sensação difusa de alívio e de esperança. A ideia de que, finalmente, aquilo tudo ia dar certo.

40 anos depois, essa lembrança permanece não apenas como memória pessoal, mas como um retrato fiel de como a inflação sempre foi, no Brasil, mais do que um fenômeno econômico. Ela era, e ainda é, um fenômeno social, psicológico e político. O Plano Cruzado nasceu dessa urgência. Em um país exausto por décadas de inflação elevada, a tentativa de resolvê-la de uma vez só parecia não apenas ousada, mas necessária.

Lançado em 28 de fevereiro de 1986, no governo de José Sarney, o plano apostava em um choque heterodoxo. Nova moeda, congelamento de preços e salários, fim da correção monetária. Funcionou por um tempo. Os índices de inflação despencaram, o consumo disparou e o país viveu alguns meses de euforia. Mas os desequilíbrios não desapareceram. Apenas ficaram ocultos. O resultado viria depois, na forma de desabastecimento, distorções de preços relativos e, inevitavelmente, o retorno da inflação.

O erro do Plano Cruzado não foi diagnosticar mal o problema, mas superestimar a capacidade de decretar confiança. A inflação brasileira não era apenas resultado de inércia ou indexação. Era também consequência de fragilidade fiscal, desorganização institucional e ausência de uma âncora crível de longo prazo. Sem isso, o congelamento tornou-se uma promessa insustentável.

Ainda assim, seria injusto olhar para o Cruzado apenas como fracasso. Ele foi parte de um processo de aprendizado. O Brasil precisou errar, várias vezes, até entender que inflação não se combate apenas com instrumentos, mas com instituições. O caminho até o Plano Real, em 1994, foi longo e custoso, mas trouxe consigo avanços estruturais profundos.

Hoje, temos um sistema monetário mais robusto, um Banco Central com mandato claro e maior autonomia, um arcabouço institucional infinitamente mais sofisticado do que o dos anos 1980. A hiperinflação ficou no passado. O brasileiro deixou de remarcar preços diariamente, deixou de correr ao supermercado no dia do pagamento, deixou de conviver com a corrosão silenciosa e constante da renda.

Mas isso não significa que o tema tenha perdido relevância. Pelo contrário.

A inflação continua sendo uma das variáveis mais sensíveis para os mercados e para a sociedade. Nos últimos anos, o mundo redescobriu esse fato. Choques de oferta, desorganização de cadeias globais e estímulos fiscais e monetários intensos reacenderam pressões inflacionárias em países desenvolvidos e emergentes. O debate sobre credibilidade, expectativas e política monetária voltou ao centro da discussão global.

No Brasil, a memória inflacionária ainda molda comportamentos. Ela influencia decisões de consumo, poupança, investimento e até o debate político. A diferença é que hoje lidamos com esse desafio em outro patamar. A inflação deixou de ser um descontrole permanente para se tornar um risco a ser administrado. E isso muda tudo.

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