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Stablecoins e seus efeitos macroeconômicos

07 de janeiro, 2026 Por: Fernando Gonçalves - Superintendente de Pesquisa Econômica do Itaú BBA

Confira o novo artigo da coluna Macroscópio

2026 começou e riscos macroeconômicos potencialmente importantes no novo ano decorrem da relevância crescente das chamadas stablecoins.

O que são elas? Por que podem ser relevantes para o cenário econômico global? Esses são os temas que abordarei nesse artigo.

Um impulso regulatório importante: o Genius Act

As stablecoins são um tipo de criptomoeda projetada para manter seu valor estável em relação a um ativo de referência, usualmente o dólar. A ideia é reduzir a volatilidade típica das criptomoedas tradicionais, como Bitcoin ou Ethereum, oferecendo previsibilidade e segurança para transações e reserva de valor.

Um impulso importante às stablecoins lastreadas em dólares foi dado pelo chamado , assinado por Trump em julho/2025. A nova lei requer que, para cada stablecoin emitida, haja 100% de lastro em títulos de curto prazo do governo americano (Treasury Bills) ou outros ativos altamente seguros e líquidos (dólar físico, reservas no BC, fundos de Money Market, Repos garantidos em T-bills).

Ao requerer paridade 1 para 1 entre stablecoins e ativos seguros como reserva, a lei limita a usual “miragem” de câmbios fixos (preços fixos, nesse caso), regimes estruturalmente vulneráveis a corridas e desvalorizações forçadas, exatamente por terem lastros parciais. Obviamente, para isso, a aplicação da lei precisa ocorrer de fato.

Nesse sentido, chama atenção que a S&P tenha em novembro/2025 para “fraca” a classificação do Tether (USDT), a stablecoin mais importante lastreada em dólar. Os motivos: falta de transparência, exposição elevada a ativos arriscados (bitcoin, ouro, títulos corporativos, etc), risco de liquidez. O episódio sugere que há ainda um longo caminho para que as stablecoins, moedas privadas, cumpram a nova lei e se tornem realmente seguras.

Por que o governo americano quer impulsionar stablecoins?

Mas por que o governo americano resolveu ser pioneiro em incentivar o mercado de stablecoins? A razão é clara: o governo acredita que o crescimento de stablecoins lastreadas em dólares vai gerar um aumento na demanda por dívida dos EUA, ao exigir que os emissores de tais moedas respaldem seus ativos principalmente com títulos do Tesouro americano.

Isso ajudaria no financiamento das contas públicas estadunidenses. E, ao aumentar a demanda por dólares, contribuiria para o status da moeda americana como reserva global, em um momento em que a durabilidade de tal status vem sendo bastante questionada.

Potenciais efeitos colaterais na economia

Mesmo que isto ocorra, há, no entanto, efeitos colaterais, tanto positivos quanto negativos, potencialmente importantes.

No âmbito microeconômico, há dois efeitos positivos: as taxas de cartão de crédito e o custo de remessas internacionais, ambos tidos como muito elevados nos EUA, tenderiam a cair. Obviamente, o modelo de negócios de sistemas como o SWIFT também seria afetado.

Mas os efeitos colaterais mais preocupantes, até porque mais incertos, são macroeconômicos. Se as estimativas de forte crescimento de stablecoins se materializarem, teremos uma grande demanda adicional por T-Bills, elevando seu preço e diminuindo os juros requeridos para financiar o governo americano nesta parte curta da curva. Este é um efeito nada desprezível, como mostra artigo recente do , especialmente porque stablecoins já estão entre os maiores detentores de T-Bills, como indica um relatório recente da ().

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Se o governo americano estiver certo – o secretário do Tesouro americano, , projeta um mercado de 3 trilhões de dólares em 2030 –, o efeito do crescimento de stablecoins nos mercados será bastante relevante. Como referência, hoje há cerca de 7 trilhões de T-bills em circulação. E, em resposta à pandemia de Covid-19, o Fed aumentou suas reservas de títulos do Tesouro dos EUA em pouco mais de US$ 3 trilhões.

É provável que parte significativa deste fluxo venha do exterior para os EUA, em parte porque stablecoins, junto com outros criptoativos, ajudarão a contornar barreiras a fluxos de capital implementadas por vários países (cuja existência é, em si, uma indicação de demanda reprimida por ativos externos, dentre os quais certamente o dólar).

Portanto, tudo mais constante, o avanço de stablecoins referenciadas em dólares podem promover uma continuação da apreciação da moeda americana, como argumenta , Governor do Fed e um entusiasta de stablecoins e do Genius Act.

A condução da política monetária também será afetada pelo advento de stablecoins. O aumento da poupança mundial em dólares implicará, tudo mais constante, numa queda do juros de equilíbrio americano, pelo menos o de curto prazo. No entanto, se a maior demanda por títulos americanos levar a um afrouxamento ainda maior da política fiscal americana, a taxa de juros longa não cairá ou cairá menos do que a taxa curta.

As implicações para a eficácia da política monetária americana são evidentes: a transmissão da taxa de policy (Fed Funds) para as taxas longas de mercado será limitada já que, tudo mais constante, a curva de juros tenderá a ficar mais inclinada. Além disso, a maturidade do financiamento da dívida pública tende a diminuir, especialmente se o governo americano quiser se aproveitar das taxas mais baixas dos T-bills e evitar emissão de T-bonds a taxas mais elevadas, piorando assim a composição do endividamento público do país. 

O outro lado da moeda (sem trocadilho, nesse caso) também deve ser considerado. Afinal, o sucesso de stablecoins em dólares implicaria fluxos advindos de outras regiões, que podem impactar moedas de mercados avançados, como o Euro, mas também moedas de economias emergentes mais frágeis e com controles de capital.

A desintermediação bancária é outro risco relevante, na medida em que o sucesso das stablecoins aumentaria a competição por depósitos. Se os próprios bancos emitissem stablecoins, isso também restringiria empréstimos bancários e aumentaria reservas em títulos do governo. Em outras palavras, iríamos para um sistema de “narrow banking”, com limitada capacidade de crédito.

O Genius Act tende a reduzir a chance de tal cenário ao impedir que emissores de stablecoins paguem juros sobre depósitos, tornando menos provável uma migração maciça de depositantes domésticos para estes ativos (embora brechas na lei parecem já estar sendo ). Além disso, o lucro da emissão de moedas – isto é, a senhoriagem – passa a ficar com o setor privado em vez do governo, com implicações para as finanças públicas, como adverte .

Um risco real para 2026?

O quão plausível é a materialização desses riscos macroeconômicos trazidos pelas stablecoins? A hipótese subjacente de toda a discussão acima é que o mercado de stablecoins se desenvolverá fortemente, como previsto por muitos analistas.

No entanto, não é todo dia que vemos uma inovação financeira com potencial de impactar o valor do dólar, a dinâmica e composição da dívida pública americana, a inclinação da curva de juros, a taxa de juros de equilíbrio, a transmissão da política monetária, a intermediação bancária, etc.

Portanto, parece razoável imaginar que o ritmo do desenvolvimento do mercado de stablecoins será modulado para lidar com os diversos impactos que esta inovação financeira pode trazer. Dito isto, é bem claro que este é um tema a ser acompanhado de perto em 2026, dadas as suas inúmeras potenciais ramificações macroeconômicas.

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