Martin Iglesias relembra como o Brasil conseguiu reverter a dependência do petróleo e como, agora, os choques nos preços, afetam menos a economia do país.
Quando o primeiro choque do petróleo atingiu o mundo, em 1973, o Brasil era um país profundamente dependente de energia importada. A economia brasileira crescia rapidamente no período que ficou conhecido como o “milagre econômico”, mas havia uma fragilidade evidente: o petróleo. Naquele momento, o país importava cerca de 80% do petróleo que consumia. A produção doméstica era pequena e incapaz de acompanhar o crescimento da demanda.
Quando os países árabes da OPEP reduziram a produção e impuseram um embargo após a Guerra do Yom Kippur, o preço do petróleo quadruplicou em poucos meses. Para o Brasil, o impacto foi imediato. A conta de importações disparou, o déficit externo aumentou e o país passou a recorrer cada vez mais ao endividamento externo para financiar a compra de energia.
Poucos anos depois, a situação se agravaria. Em 1979, a Revolução Iraniana provocou um novo choque de oferta e uma nova disparada nos preços do petróleo. O Brasil continuava altamente dependente da importação de energia, e o aumento dos custos pressionou ainda mais as contas externas e a inflação. Ao longo da década seguinte, o peso da dívida externa e o ambiente internacional mais adverso contribuiriam para um período difícil da economia brasileira, marcado por baixo crescimento e inflação elevada.
Cinco décadas depois, o petróleo voltou ao centro da geopolítica global. O fechamento do Estreito de Ormuz e a rápida reação dos mercados mostram como a energia continua sendo um tema estratégico. O preço do petróleo subiu e o debate sobre seus efeitos econômicos voltou a ganhar espaço.
Mas o Brasil de hoje é muito diferente daquele que enfrentou os choques do petróleo nos anos 1970.
A principal transformação ocorreu na produção doméstica. Ao longo das últimas décadas, o país desenvolveu novas fronteiras exploratórias, especialmente no offshore. A descoberta e o desenvolvimento do pré-sal mudaram profundamente a posição do Brasil no mercado energético global.
Hoje o país está entre os maiores produtores de petróleo do mundo e tornou-se exportador líquido da commodity. O petróleo deixou de ser apenas uma fonte de vulnerabilidade externa e passou a representar também uma importante fonte de receitas de exportação.
Isso não significa que o Brasil esteja imune a choques nos preços do petróleo. A alta da commodity ainda pressiona os preços de combustíveis e pode gerar impactos inflacionários. O petróleo continua sendo um insumo importante para transporte, logística e diversos setores da economia.
Mas o canal externo mudou. Nos anos 1970, preços mais altos significavam uma deterioração imediata das contas externas. Hoje, em muitos casos, preços mais elevados podem melhorar os termos de troca do país, aumentando as receitas de exportação do setor de óleo e gás.
Além disso, a matriz energética brasileira tornou-se mais diversificada. Hidrelétricas, biocombustíveis, energia eólica e solar passaram a ter papel relevante na oferta de energia do país, reduzindo a dependência direta de combustíveis fósseis em vários segmentos.
A economia brasileira também conta hoje com instrumentos de política econômica que não existiam nos anos 1970, como o regime de metas de inflação, o câmbio flutuante e um volume significativo de reservas internacionais.
Nada disso elimina os efeitos de choques geopolíticos no mercado de petróleo. Mas a natureza da vulnerabilidade mudou. O país que um dia sofreu com a dependência do petróleo importado tornou-se, décadas depois, um participante relevante do próprio mercado global de energia.